Por Pedro Luiz Rodrigues
As cerimônias de não-posse de Hugo Chávez para um novo mandato como presidente da Venezuela e a assunção, em sua falta, como administrador temporário, de um cidadão que nunca foi eleito para cargo algum, clamam por nosso repúdio.
Pedem, também por alguma reflexão sobre os rumos do autoritarismo populista em nossa região do planeta.
Nesse aspecto, é motivo de regojizo vermos o Brasil distanciar-se desse caminho que tanto entusiasma nossos vizinhos de língua espanhola, e no qual íamos seguindo despreocupados, sob o comando do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Acho que está na hora de começarmos a exercer uma verdadeira liderança (não confundam com hegemonia!) na América do Sul.
Nossa dimensão territorial e populacional, os avanços alcançados nos últimos sessenta anos em nossa economia, a consolidação da cidadania e o respeito aos valores democráticos nos distinguem-nos de nossos valorosos vizinhos.
É vergonhoso para o Brasil atrelar seu futuro ao de vizinhos que vêm muito atrás de nós em termos econômicos, financeiros e de consolidação democrática. Devemos seguir buscando contruir um caminho sólido para o futuro.
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Em outubro de 2005, o jornal El País, de Madri, abriu espaço para publicar um instigante artigo do historiador mexicano Enrique Krauze, sobre o populismo na América Latina. Lamentável é constatar que o que era atualíssimo naquele época, continua a ser atualíssimo hoje, quando assistimos na região sistemáticos atentados à democracia, praticados por líderes e grupos cujas praticas reduzem a cidadania à vagabunda condição de patuleia.
Para Krauze, Juan Domingo Perón, que venerava Benito Mussolini, foi o introdutor deste mal na América Latina. Populista pós-moderno, prossegue, é o comandante Hugo Chávez, que venera Castra e que pretende converter a Venezuela em uma colônia experimental do ‘novo socialismo’. “Os extremos se tocal, são cara e cruz de um mesmo fenômeno político, cuja caracterização não está em seu conteúdo ideológico, mas no seu funcionamento”.
Esse fenômeno, nos ilumina Krauze, reúne características que podem ser reunidas num decálogo.
1 – O populismo exalta o líder carismático, a figura do homem providencial que resolverá definitivamente os problemas do povo. Krauze toma de empréstimo Max Weber: a entrega ao carisma ao grande demagogo se dá simplesmente porque as pessoas creem nele.
2 – O populista não só usa e abusa da palavra, apodera-se dela, porque a palavra é o veículo específico de seu carisma, uma vez que ele é o intérprete supremo da verdade. “Fala constantemente com o público, atiça suas paixões, ilumina-lhe o caminho, e tudo sem a limitação de intermediários”.
3 – O populista abomina a liberdade de expressão, porque fabrica a verdade e interpreta a voz do povo, elevando-a à condição de verdade oficial e aspira decretar a verdade única. “Confudem crítica com inimizade militante, por isso buscam desprestigiá-la, controlá-la, silenciá-la”.
4- O populista tende a usar a seu bel prazer os fundos públicos. “Sendo o erário seu patrimônio, pode utilizá-lo tanto para seu enriquecimento pessoal, como para embarcar em projetos que considere importantes e gloriosos, sem se preocupar com os custos”. O populista tem um conceito mágico da economia: todo gasto é investimento.
5 – O populista reparte diretamente a riqueza. O que não é mal em si mesmo. Mas o populista não o faz de maneira gratuita. A um preço a ser pago, em obediência.
6 – O populista estimula o ódio entre as classes: fustigam aos “ricos” (a quem acusam vez por outra de ser ‘antinacionais’), mas cercam-se de ‘empresários patrióticos’, que apoiam o regime. O populista não quer acabar à força com o mercado, ele quer manipulá-lo a seu favor.
7 – O populista mobiliza permanente as massas, e a praça pública é o seu grande teatro, é onde tem o contato direto com Sua Majestade, o Povo, para demonstrar sua força e lançar invectivas contra os maus.
8 – O populismo alimenta a preocupação com o inimigo externo.”Imune à crítica e alérgico à autocrítica, busca encontrar bodes expiatórios para os fracassos, o que às vezesw requer lançar a atenção interna contra adversários de fora”.
9 – O populismo tem desapreço pela ordem legal. “Por isso, uma vez no poder, o caudilha tende a apoderar-se do Congresso e induzir a justiça direta”. Hoje, salientava Krauze há sete anos e meio, “o Congresso e a Justiça (venezuelanas) são um apêndice de Chávez”
10) O populismo mina, domina e busca destruir as instituições da democracia liberal, e as definirá como aristocráticas, oligárquicas e contrárias à vontade popular, porque na verdade abomina os limites ao exercício do poder.
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