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DIANA BRITO
DO RIO
DO RIO
O pintor e ceramista chileno Jorge Selarón, 65, achado morto na manhã desta quinta-feira (10) em escadaria feita por ele, na Lapa, região central do Rio, sofria de depressão, segundo vizinhos. Há cerca de dois meses, o artista dizia que se sentia incomodado com ameaças de um ex-colaborador de seu ateliê em Santa Teresa, bairro vizinho.
"Ele dizia que não estava mais aguentando o sofrimento. O que eu posso dizer é que o Selarón mudou muito de dois meses para cá e estava acolhido, reprimido", disse Del Aquino, 45, vizinho do pintor.
Por volta das 7h, o artista tomou café numa padaria na Lapa. "Ele levou mais dois pães para casa e até deixou 50 centavos de gorjeta para mim. Estava bem, tranquilo", disse um balconista à Folha.
Por volta das 7h15, vizinhos ouviram gritos de socorro na rua Manoel Carneiro, na escadaria que liga a Lapa à Santa Teresa. "Fiquei com medo do barulho e não desci. Ouvi muitos gritos de um homem pedindo socorro e os cachorros latiam muito", afirmou uma moradora angolana ainda abalada, que não quis se identificar.
Vizinhos mais próximos de Selarón, no entanto, dizem que os gritos foram de um acompanhante do artista que dormia no ateliê dele e foi um dos primeiros a chegar ao local. A administradora Lucineide Matos, 30, vizinha mais próxima do artista, disse que chegou a ver o corpo ainda em chamas.
Jorge Selarón
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Artista chileno Jorge Selarón é encontrado morto na Escadaria do Convento de Santa Teresa, no centro do Rio
"A gente sentiu um cheiro de pano queimado e foi correndo na varanda para ver o que era. Quando eu vi ele ainda estava em chamas. Fiquei desesperada, chamei o rapaz que dava apoio de segurança para ele, que dormia do ateliê, mas ele já estava morto", lamentou emocionada a administradora.
Por volta das 11h, o corpo foi removido pela perícia da Polícia Civil. As causas da morte ainda são investigadas pela Divisão de Homicídios do Rio. Nenhuma hipótese está descartada até o momento, de acordo com a polícia.
Peritos encontraram uma lata de tíner e um isqueiro junto ao corpo de Selarón. Outra lata de tíner semelhante foi localizada no quarto do artista. Amigos dizem que o pintor não fumava, nem usava drogas.
No dia 24 de novembro do ano passado, o artista havia registrado queixa de ameaça na 7ª DP (Santa Teresa). Ele disse que o vizinho Paulo Sergio Rabello, ex-colaborador de seu ateliê "não parava de ameaçá-lo". Segundo a denúncia, o suspeito ainda teria quebrado quadros do artista e mostrado um canivete para amedrontá-lo.
Vizinhos dizem que Rabello estaria exigindo os rendimentos obtidos com a venda de quadros do chileno depois que passou um período, em outubro do ano passado, tomando conta do ateliê dele. Na ocasião, o estrangeiro havia viajado com uma namorada para Parati (RJ).
"Ele era uma pessoa muito boa, ajudava todo mundo. Chegou mandar esse ajudante para Europa, Buenos Aires", disse chorando o acompanhante, que pediu para não ter o nome divulgado.
Um amigo chileno que se identificou apenas como Loferato disse que chegou a avisar o consulado chileno sobre o caso. "A polícia não fez nada, nem o consulado. Não acredito que ele tenha se matado", disse.
A Folha tentou localizar Paulo Rabello, mas ele não foi encontrado. A reportagem também entrou em contato com o consulado chileno, mas ainda não obteve retorno.
O pintor tinha três cômodos alugados num casarão de dois andares à beira da escadaria. Um era o quarto dele, o outro o ateliê e o terceiro para guardar materiais. Na mesma residência, há 19 moradores.
Selarón é autor do mosaico de cores que transformou os 215 degraus da Escadaria do Convento de Santa Teresa, que liga o bairro à Lapa, um dos principais pontos turísticos da região. "Ele transformou esse lugar aqui há mais de 20 anos, que antes era apenas uma escadaria de concreto", disse o morador Shinaider Célio, 23.
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