sábado, 22 de setembro de 2012

Mensalão: agora, Lula se cala - e o PT fica desnorteado



O ex-presidente silencia diante das revelações do empresário Marcos Valério, que o colocou como chefe do esquema. PT, agora, diz que julgamento é golpe

Daniel Pereira e Rodrigo Rangel
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO - Lula e Valério: as revelações seriam uma tentativa de “golpe das elites” com a participação dos ministros do Supremo
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO - Lula e Valério: as revelações seriam uma tentativa de “golpe das elites” com a participação dos ministros do Supremo (Juliana Knobbel/Frame/Folhapress e Cristiano Mariz)
O PT fabricou uma manifestação de apoio a Lula por saber que as confissões de Valério podem ser investigadas. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, considerou importantes as revelações e declarou que poderá analisar o envolvimento de Lula no mensalão
Na edição passada, uma reportagem de VEJA revelou com exclusividade parte das confissões feitas pelo empresário Marcos Valério, o operador financeiro do mensalão, sobre as engrenagens do maior escândalo de corrupção política da história do país. Além de confirmar a participação decisiva no suborno a parlamentares dos petistas José Dirceu e Delúbio Soares, que figuram como réus no processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), Valério implicou o ex-presidente Lula no esquema -- e no papel de protagonista. Valério diz que Lula era o verdadeiro comandante da organização criminosa denunciada pelo Ministério Público. Afirma que a quadrilha do mensalão contava com um caixa de 350 milhões de reais, o triplo, portanto, do valor identificado pela Polícia Federal. Além disso, ressalta que desde a eclosão do escândalo, em 2005, teve Paulo Okamotto como interlocutor no PT. Amigo do peito e pagador de contas pessoais do ex-presidente da República, Okamotto era fiador de um acordo que previa a impunidade em troca do seu silêncio. O empresário desabafou: “Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos”.
Valério sempre ameaçou relatar em detalhes o funcionamento do mensalão. E sempre foi contido - segundo contou a pessoas próximas - pela promessa do ex-presidente e do PT de ajudá-lo na Justiça. Esse acordo se manteve de pé até o início do julgamento no STF. Já condenado por corrupção ativa, peculato e lavagem de dinheiro, crimes que podem resultar numa pena de mais de 100 anos de prisão, Valério resolveu compartilhar seus segredos com um grupo seleto de confidentes. A revelação dessas conversas por VEJA desnorteou o PT,conforme mostra reportagem publicada na edição desta semana. Lula, um notório entusiasta do debate em público, preferiu o silêncio ao ser confrontado com as novas informações. Não rechaçou o que Valério contou nem tentou desqualificá-lo. Dirceu e Delúbio seguiram o chefe. Não foi à toa. Segundo aliados, Lula não quer desafiar Valério, que não teria mais nada a perder. Além disso, teme que o empresário revele mais detalhes se provocado. Rebatê-lo agora, sem saber do arsenal à disposição de Valério, seria uma estratégia de altíssimo risco. A palavra de ordem é não comprar briga com o pivô financeiro do mensalão. Contra-ataques, só em cima dos alvos de sempre, aqueles aos quais os petistas recorrem, como uma conveniente muleta, toda vez que são pilhados em irregularidades.
Essa estratégia foi seguida à risca. Na segunda-feira, o PT divulgou uma nota conclamando a militância para “uma batalha do tamanho do Brasil” - no caso, a defesa do partido e do ex-presidente. O texto não faz menção às confissões de Valério. Ou seja: não explica do que Lula deve ser defendido. Na quinta-feira, outra nota foi publicada. Ela retoma a tese de que o mensalão e seus desdobramentos não passam de uma conspiração urdida pela oposição e por setores da imprensa para tirar o PT do comando do país por meio de um golpe. Esse golpe seria alimentado com a divulgação de denúncias sem provas. Quais denúncias? A redação petista não teve coragem, de novo, de citar as confissões de Valério, providencialmente esquecido. Fala de uma “fantasiosa matéria veiculada pela Revista Veja”. Fantasiosa, por ora, só a nota do PT. Ela foi elaborada pelo presidente da sigla, Rui Falcão. Em seguida, ele ligou para os presidentes de cinco partidos e pediu-lhes que subscrevessem o texto. Não se tratou de uma solidariedade espontânea. Muito pelo contrário. O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp, assinou sem ler e nem sequer consultou seus correligionários -- entre eles, o vice-presidente da República, Michel Temer. “Não concordo com a nota, mas não podia recusar um pedido do presidente Lula”, revelou um dos signatários.
Tiago Queiroz/AE, Cristiano Mariz, Caio Guatelli/Folhapress
DEGRADANTE - O mensalão cria constrangimentos à campanha do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo, principalmente diante da aproximação da data de julgamento do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Os dois serão julgados pelo Supremo por corrupção ativa
  DEGRADANTE - O mensalão cria constrangimentos à campanha do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo, principalmente diante da aproximação da data de julgamento do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro Delúbio Soares. Os dois serão julgados pelo Supremo por corrupção ativa
O PT fabricou uma manifestação de apoio a Lula por saber que as confissões de Valério podem ser investigadas. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, considerou importantes as revelações e declarou que poderá analisar o envolvimento de Lula no mensalão, tal qual relatado por Valério, depois do julgamento do processo no STF. Os petistas também esperam usar a nota assinada por presidentes de partidos aliados no horário eleitoral gratuito. A ideia é alegar que o PT está sendo vítima de uma conspiração de setores conservadores, os quais estariam pressionando o Supremo -- que teve sete dos seus atuais dez ministros nomeados pelo governo petista -- a condenar os réus do mensalão. O processo no STF tem influenciado de forma negativa o desempenho dos petistas nas disputas municipais. Imposto ao partido por Lula, Fernando Haddad está na terceira colocação na corrida pela prefeitura paulistana. Na semana passada, num recurso à Justiça Eleitoral, a equipe dele disse ser “degradante” a associação da imagem de Haddad à de Dirceu e Delúbio, como tem feito o PSDB. Mais sintomático dos efeitos do mensalão, impossível.
O PT sempre desdenhou dos impactos políticos do caso. Numa conversa com aliados dias antes do início do julgamento no STF, Lula disse que o processo teria “influência zero” sobre o partido e seus candidatos. Com a mesma confiança do líder messiânico que prometera aos réus livrá-los da condenação judicial, Lula lembrou que foi reeleito em 2006, um ano depois de ser acossado pela ameaça de um processo de impeachment, e fez de Dilma Rousseff sua sucessora em 2010. O mensalão seria uma mera “piada de salão”. Piadinha sem graça.

Editora do jornal 'Granma' pede asilo em Miami, diz site



Site 'Café Fuerte' divulgou que Mairelys Cuevas Gómez desertou e está em Miami. Informação não pode ser confirmada no site do jornal

Página do site 'Café Fuerte' afirma que a editora-chefe do 'Granma', Mairelys Cuevas Gómez, está em Miami e pediu asilo aos EUA
Página do site 'Café Fuerte' afirma que a editora-chefe do 'Granma', Mairelys Cuevas Gómez, está em Miami e pediu asilo aos EUA (Reprodução/Site 'Café Fuerte')
A editora-chefe do jornal estatal cubano 'Granma', Mairelys Cuevas Gómez, está em Miami e pediu asilo às autoridades americanas, divulgou nesta sexta-feira o site 'Café Fuerte' - página na web mantida por exilados cubanos com foco em notícias de Cuba e de Miami. Ainda segundo o site, Mairelys, de 27 anos, chegou no domingo passado aos EUA após atravessar a fronteira com o México, aonde estava em viagem como convidada para participar de um evento.
A jovem negou entrevista ao site. A publicação divulgou o testemunho de um ex-companheiro de Mairelys sobre o impacto que fuga teve no país. O 'Café Fuerte' também publicou declarações de uma amiga da jornalista que vive em Miami – ela diz que Mairelys tem um namorado na cidade americana.
A conhecida blogueira e jornalista Yoani Sánchez desejou sorte a Mairelys Cuevas pela rede social Twitter – a intenção foi expressa “ainda que [Mairelys] tenha feito parte aqui [em Cuba] do monopólio informativo que nos silencia e agride”, disse a militante.
Onda - A deserção da jornalista do Granma se soma a uma onda de fugas de jovens integrantes da imprensa oficial durante o último ano. Em agosto, Luis López Viera, chefe da seção esportiva do diário Juventud Rebelde, pediu asilo político em Londres, onde acompanhava a delegação cubana na Olimpíada.
Daniel Benítez, ex-funcionário da Agência Cubana de Notícias (ACN), chegou a Miami em julho passado. Em outubro de 2011, os jornalistas Daniel Anaya, do Instituto Nacional de Deportes (INDER), e Damián Delgado Averhoff, diretor da seção de esportes da revista Bohemia, desertaram quando estavam com a delegação cubana nos jogos Panamericanos de Guadalajara, México.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Lucas Mendes: Deboche e denúncia



Atualizado em  20 de setembro, 2012 - 08:37 (Brasília) 11:37 GMT
Binômio é um título bizarro até para um pasquim. Era uma provocação ao nome do plano de governo do popular governador de Minas, Juscelino Kubitcheck, o "Binômio Energia e Transporte".
Quem usaria hoje a palavra "binômio" para uma campanha publicitária? O pasquim roubou o bordão: Binômio Sombra e Água Fresca.
1952. Dois os jovens jornalistas, José Maria Rabelo e Euro Arantes, de 23 e 24 anos, trabalhavam no Jornal do Comércio.
"Esta imprensa mineira é uma titica . Por que a gente não faz um jornal?"
"E o tutu?"
O dinheiro veio de um grupo de deputados de oposição: num editorial, o Binômio anunciava: "Somos 99% independentes e 1% suspeitos, exatamente o oposto dos concorrentes".
O sucesso foi instantâneo. A primeira edição teve três impressões. Depois de três semanas, o jornal dispensou o dinheiro dos deputados.
Deboche com humor e denúncias das promiscuidades entre o governo e os poderosos do Estado eram o prato semanal.
Juscelino era popular, alegre, limpo, garanhão e pé de valsa. Um alvo difícil.
Em um evento, o governador se protegeu da chuva com uma cadeira de cabeça para baixo. O jornal inverteu a foto, colocou JK numa posição circense e deu o título "Minas de Cabeça para Baixo".
Uma manchete provocante envolvia o mais rico empreiteiro do Estado, Joaquim Rolla. "JK foi à Araxá e levou Rolla". Vendeu jornal e não comprometeu a fama de garanhão de JK. Não era homem vingativo. Levava o deboche no deboche.
Euro Arantes, parceiro de Rabelo, dizia que o Binômio era "uma brincadeira de estudantes que a polícia levou a sério", mas eles sabiam se promover. Anunciaram uma edição imprópria para menores de 18 anos com cartazes que diziam que "os pais não devem levar o jornal para casa e as bancas não devem expor páginas abertas".
A polícia se preparou para confiscar o jornal, que saia sempre aos domingos, mas naquela semana saiu no sábado. Esgotou numa manhã.
Toda edição trazia reportagens e textos de jornais concorrentes com histórias engraçadas e venenosas, como a de uma mulher que queria acrescentar o sobrenome Pinto e as considerações do juiz de como podia usar o Pinto. Os concorrentes nunca mais incomodaram oBinômio.
Belo Horizonte era uma das cidades mais conservadoras do Brasil e o homem mais rico da cidade, um dos mais ricos do pais, truculento e alvo frequente do jornal, era Antonio Luciano, dono de mais de trinta cinemas, centenas de imóveis, viciado em virgens. Consumiu mais de 2.000, teve mais de 100 filhos, muitos com suas próprias filhas. São números mineiros. Desconfie.
O duplo sentido era uma especialidade da casa, mas com o general João Punaro Bley a manchete de 8 colunas foi na boca do estômago: "O Democrata de Hoje é o Facista de Ontem".
Em 1961, o general era a maior autoridade militar da cidade. O Binômiodescobriu que fora interventor no Espírito Santo durante a ditadura de Getúlio Vargas, onde ganhou o apelido "Capitão Óleo de Ricínio" porque costumava invadir redações e forçar jornalistas a engolir a página de jornal que considerava ofensiva com óleo de rícino.
Punaro Bley entrou no Binômio com um bastão metálico debaixo do braço, pegou José Maria Rabelo pelo pescoço: "seu jornalista de merda, filho da puta".
Rabelo sabia judô e sangrou o general. Duas horas depois, duzentos homens do Exército e da Aeronáutica empastelaram o jornal. Não sobraram nem pias nem privadas. Rabelo se refugiou em São Paulo.
Os comandantes responsáveis foram transferidos, mas Rabelo estava na mira dos militares. No golpe de 64, se asilou na embaixada da Bolívia e passou 16 anos no exílio. Perdeu quase tudo.
Em 1952, Belo Horizonte tinha 300 mil habitantes. O Binômio vendia 60 mil exemplares. Hoje, a grande BH tem 5 milhões de habitantes, a cidade tem 2,5 milhões e o jornal de maior circulação vende exatamente 60 mil exemplares no domingo, o dia campeão de vendas.
Binômio este ano faz 60 anos e há uma excelente entrevista com José Maria Rabelo, que faz 84 neste ano, lúcido e ativo, no excelente jornal Trem Itabirano. Há também farto material de vídeo e texto na web e no YouTube.
Os jornalistas Marcos Caldeira, editor do Trem, e Lucas Ferraz, daFolha, enriqueceram esta coluna com várias histórias. Só estive com José Maria Rabelo uma vez no Rio, numa reunião de jornalistas e escritores mineiros, e pouco falamos.
Pelo Binômio, um precursor do Pasquim, passaram Ziraldo, Borjado, Ponce de Leon, Affonso Romano de Sant'Anna, Barão de Itararé, Fernando Gabeira, Fernando Sabino, Roberto Drummond, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Wander Piroli, a fina flor do jornalismo e dos cartunistas.
Num período do governo Bias Fortes, entre 55 a 60, nenhuma gráfica imprimia o jornal em BH. Era impresso no Rio e foi o primeiro a usar cores. José Maria Rabelo ia lançar a edição nacional quando veio o golpe de 64 e o exílio.
Hoje, finaliza um livro sobre a história de Belo Horizonte, que deve ser lançado até o fim de ano.
Temos bom jornalismo investigativo na grande imprensa brasileira, mas onde estão os Pasquins e os Binômios? Quem sabe, o Trem Itabiranochega lá.

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Pais descobrem que bebê que deram à adoção virou campeã paraolímpica


 BBC Brasil



Atualizado em  20 de setembro, 2012 - 08:34 (Brasília) 11:34 GMT
Foto: Getty
Pais biológicos assistiram aos Jogos Paraolímpicos sem saber que nadadora era sua filha
Um casal russo que deu sua filha portadora de deficiência para adoção disse à mídia de seu país ter descoberto que a menina é a nadadora americana Jessica Long, medalhista de ouro na Paraolimpíada de Londres 2012.
O casal disse querer conhecer a para-atleta, que foi adotada por um casal americano.
Natalya e Oleg Valtyshev, que deixaram a menina em um orfanato na Sibéria pouco depois do seu nascimento, chegaram a assistir às competições de Jessica Long pela televisão sem saber quem ela era.
Em entrevista a um canal de TV russo, eles dizem estarem orgulhosos da garota.
Long já disse em entrevistas que gostaria de ir à Rússia após os Jogos Paraolímpicos para encontrar a família, mas ainda não se pronunciou sobre a aparição dos pais.

Sugestão dos médicos

Jessica Long, que foi chamada de Tatiana ao nascer, foi adotada por um casal americano quando tinha um ano de idade. Ela vivia em um orfanato na cidade de Bratsk, na Sibéria, há cerca de 3,7 mil quilômetros de Moscou.
A menina, que cresceu em Baltimore, nos Estados Unidos, nasceu sem tornozelos, joelhos e sem a maior parte dos ossos dos pés.
Ainda antes de deixar a Rússia, ela teve a parte inferior das pernas amputadas para usar próteses e aprender a andar.
Anos depois, Jessica se tornou atleta paraolímpica e ganhou 12 medalhas de ouro em três edições dos Jogos.
Após a paraolimpíada de Londres 2012, seus pais biológicos foram encontrados por jornalistas russos e se emocionaram ao falar da menina.
Segundo o jornal Siberian Times, a mãe da para-atleta disse "sentir muito" por tê-la dado para a adoção.
"Na época eu tive medo. Tive que deixá-la para trás. Mas eu cheguei a pensar em pegá-la de volta", afirmou.
"Eu estava sozinha na Sibéria, sem minha mãe e meu pai. Para onde eu iria com ela? Os médicos disseram para eu deixá-la, disseram que eu não podia ajudá-la. Eu a chamei de Tatiana, como minha irmã mais velha."
O pai, Oleg Valtyshev, que tinha 17 anos à época do nascimento da menina, disse que o casal foi pressionado pelos médicos para deixar a menina.
"O que eu poderia ter dito? Eu não poderia ter dito nada porque não estava preparado para isso. Eu fiquei muito chocado com a coisa toda", disse ele.
"Mas não quero falar contra os médicos. Eles disseram: 'A garota tem deformidades e vocês são jovens, vai ser difícil'."
Desde então, o casal teve três outras filhas incluindo outra menina portadora de deficiência. Dasha, de 13 anos, tem características semelhantes às de Jessica e vive com os pais.

'Orgulho'

Natalya e Oleg afirmaram ao canal de TV que tinham a intenção de buscar a filha quando pudessem, mas que ela foi adotada antes.
"As crianças geralmente são mantidas no orfanato até os três anos, e eu tinha certeza de que ninguém iria adotá-la. Eu me informava sobre ela, sabia que ela estava linda, que todos a amavam", disse a mãe.
"No dia 6 de julho de 1993 eu dei à luz minha segunda filha Nastya (Anastasia) e no dia 9 de julho soube que um casal de americanos a adotou."
Nastya descobriu aos 19 anos que tinha uma irmã. Ao canal russo, ela disse que sua mãe confessou que deu Tatiana para a adoção, mas que parecia traumatizada demais para falar a respeito.

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Memória: Polonesa descreve épica jornada por 3 continentes durante 2ª Guerra


BBC Brasil




Atualizado em  20 de setembro, 2012 - 05:51 (Brasília) 08:51 GMT
Danuta Maczka (Crédito: arquivo da família Gradosielska e Kresy-Siberia)
Danuta conheceu seu marido durante seu serviço
Quando tropas soviéticas marcharam sobre a Polônia no dia 17 de setembro de 1939, no começo de uma guerra que deixaria milhões de mortos e refugiados, teve início também a extraordinária jornada da menina Danuta Maczka.
Em entrevista à BBC, Danuta, hoje octogenária, narrou sua odisseia: da fazenda onde vivia, no leste da Polônia, para um campo de trabalhos forçados na Sibéria e depois para o Irã, Palestina, Egito e Inglaterra, onde reside hoje.
Nascida na região rural de Rovne, na Polônia (hoje Rivne, na Ucrânia), ela vivia com os pais, o irmão Stefan e a irmã Zosia, em uma casa de fazenda cercada de cerejeiras.
Em setembro de 1939, ela se preparava para começar o curso ginasial. Seu pai já havia comprado a jaqueta do uniforme.
No entanto, sua vida virou de cabeça para baixo. A Polônia foi invadida ao oeste por tropas alemãs e, ao leste, por soviéticas.
Poucos meses depois, quando o inverno chegou, agentes da polícia soviética NKVD já haviam começado a reunir oficiais do Exército polonês. Mais tarde, eles seriam mortos em segredo na floresta de Katyn. Famílias como a de Danuta tinham esperanças de que seriam deixadas em paz.

Adeus Polônia

A batida na porta veio às 6h de uma manhã escura, cheia de neve, no dia 10 de fevereiro de 1940.
Danuta ainda se lembra de ouvir as vozes dos soldados russos ordenando que seus pais saíssem da casa. A família levou consigo o que foi capaz de carregar: comida, roupas quentes e cobertores e todos se acomodaram em um trenó.
(Crédito: arquivo da família Gradosielska e Kresy-Siberia)
Por muito tempo, Danuka não conseguia olhar para seu diário e para fotos da época da guerra
"Olhei para trás e lá estava meu cachorrinho, correndo, correndo atrás de nós, até que não conseguiu mais correr."
Centenas de famílias polonesas estavam agrupadas na estação de trem de Lubomyrka. Alguns já sabiam que estavam sendo deportados para campos de trabalhos forçados na Sibéria e no Cazaquistão, como civis potencialmente hostis à União Soviética.
Ninguém sabe quantos poloneses foram deportados naquelas semanas, mas as estimativas indicam que seriam em torno de um milhão.
"Nos colocaram em um trem de carga", contou Danuta. "Estava cheio - 72 pessoas em cada vagão. Tinha um buraco no chão (que servia como) banheiro. E um pequeno fogão."
Os poloneses cantavam hinos e canções enquanto cruzavam a fronteira, deixando a Polônia para trás.
"Havia tábuas, como prateleiras, onde dormíamos. Eu subi até a tábua mais alta e me deitei, olhando por uma grade. Vi a Rússia passando - só espaços vazios e neve."
"À medida que o trem prosseguia, os bebês iam ficando quietos e morriam. "O guarda vinha e atirava os bebês mortos na neve, pela janela. Quando um adulto morria, eles colocavam o corpo em uma plataforma perto do motor. Quando a velocidade do trem diminuía, eles jogavam os corpos fora. As crianças, eles simplesmente jogavam fora."
Durante toda a viagem, Danuta descrevia tudo o que via em seu diário.
À medida que o trem prosseguia, os bebês iam ficando quietos e morriam. "O guarda vinha e atirava os bebês mortos na neve, pela janela. Quando um adulto morria, eles colocavam o corpo em uma plataforma perto do motor. Quando a velocidade do trem diminuía, eles jogavam os corpos fora. As crianças, eles simplesmente jogavam fora."

Gulags

Os poloneses finalmente chegaram ao campo na Sibéria onde iriam trabalhar, cortando madeira. O local integrava o antigo sistema de campos de prisioneiros, conhecidos como gulags.
A floresta era estranhamente silenciosa.
"Não havia pássaros cantando na floresta. Não havia animais, lobos ou ursos. Não havia sequer ratos. Nada. Não havia nada lá. Talvez os prisioneiros tivessem comido os pássaros, não sei. Mas eu nunca ouvi um único som".
O trabalho de Danuta era descascar troncos de vidoeiro e moer as cascas em um moinho. Ela caminhava com a irmã, Zosia, ao longo dos trilhos da ferrovia para encontrar pequenos assentamentos na floresta. Nesses locais, elas podiam trocar seus bens por comida.
(Crédito: arquivo da família Gradosielska e Kresy-Siberia)
Danuka (abaixo à dir) com sua família (Crédito: arquivo da família Gradosielska e Kresy-Siberia)
O relógio de pulso de Danuta foi o primeiro. "As pessoas lá nunca tinham visto uma loja. Nunca tinham visto nada parecido com a minha camisola - nossas coisas, para eles, eram tesouros. Então conseguimos um pouco de comida e sementes de batata".
Com dificuldade, a mãe de Danuta conseguiu manter a família alimentada. "Muitas famílias morreram. Havia uma família perto de nós, sete crianças e os pais. Todos morreram, com exceção de uma filha. A mãe não tinha leite para alimentar os pequenos. Não havia vacas, então eles simplesmente morreram".
Quando o inverno de 1940 chegou, Zosia adoeceu com pneumonia. Havia um hospital, com camas, mas sem remédios. Na véspera do Natal, Danuta e seu pai foram visitá-la.
"Fomos até sua cama. Percebemos que estava morta. Então, meu pai teve de carregá-la para casa. No dia de Natal ele fez um caixão e um pequeno trenó para carregá-lo. No dia seguinte nós a enterramos. Meu pai puxava o trenó e eu e minha mãe seguíamos atrás, chorando e rezando. Então nós a pusemos na cova".

Invasão de Hitler

Em junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética. Os prisioneiros poloneses agora eram aliados dos soviéticos. Os soviéticos lhes deram duas opções: se alistar no Exército Vermelho ou formar seu próprio exército polonês no exílio. O Exército deveria se reunir no Uzbequistão, no sul da União Soviética.
Danuka, em foto atual (Foto: BBC)
Danuka vive hoje na Inglaterra
Milhares de poloneses seguiram para o sul. Alguns embarcaram em trens de carga novamente, aglomerados em vagões sujos durante dias. Milhares morreram de febre tifoide no caminho. Moradores de pequenas cidades no Uzbequistão ainda se lembram dos corpos que caíam para fora dos vagões quando as portas eram abertas.
Outros pegaram carona em carroças, sobrevivendo à custa de batatas cruas que encontravam nos campos.
Em Guzar, no Uzbequistão, os poloneses se apresentaram ao general Wladislaw Anders.
Danuta acrescentou dois anos à sua idade, para completar os 18 anos requeridos, e se alistou. Ela bordou uma águia branca polonesa no seu uniforme e encheu suas botas imensas com palha para que não caíssem dos seus pés.
O Exército de Anders não tem paralelo nos tempos modernos. Além de ser integrado por exilados, as tropas viajavam com seus familiares - maridos, mulheres e milhares de crianças, muitas delas, órfãs.
Anders liderou esse imenso e heterogêneo grupo de poloneses pela Ásia Central até o Mar Cáspio, de onde, à bordo de barcas, seguiram para o Irã.
Tropas aliadas britânicas os encontram na praia, no porto de Pahlavi.
"Foi pura sorte", disse Danuta. "Os britânicos nos fizeram passar por (câmaras com) sprays desinfetantes. Enquanto estávamos lá dentro, queimaram todas as nossas coisas. Como a minha jaqueta da escola. A sorte é que eu levei meu diário e os meus desenhos para dentro da tenda de desinfecção, então saíram de lá comigo".
Os órfãos poloneses ficaram em orfanatos no Irã, mas os militares seguiram para o norte da África.
Ainda adolescente, Danuta foi uma entre 800 mulheres polonesas que trabalharam não como enfermeiras ou secretárias militares, mas como motoristas de caminhões, levando munição e alimentos para as forças polonesas e britânicas espalhadas por toda a Palestina.
(Crédito: arquivo da família Gradosielska e Kresy-Siberia)
Mulheres do Exército polonês viajando por território palestino durante a 2ª Guerra
"Eu dirigia um caminhão Dodge de três toneladas. Era tão pequena que dobrava um cobertor e sentava em cima dele para poder ver sobre o volante. Os homens ficavam estupefatos ao nos ver, meninas, dirigindo os caminhões".

Inglês

Danuta aprendeu suas primeiras palavras de inglês com os soldados britânicos. "Eles me chamavam de baby (bebê)! Eu não sabia o que isso queria dizer. Eu aprendi babycorned beef (carne seca enlatada) - coisas assim".
Muitos dos judeus poloneses decidiram ficar na Palestina. Outros, como Danuta, seguiram para a Itália, em 1943, para dar suporte às tropas polonesas na batalha de Monte Casino. Foi na Itália que Danuta encontrou o jovem oficial polonês com quem viria a se casar. E foi lá, também, que a guerra finalmente terminou para ela.
Danuta, e milhares de outros poloneses, foram desmobilizados na Grã-Bretanha, onde ela reencontrou o irmão, Stefan, e os pais.
Alguns optaram por retornar a suas antigas casas na Polônia. Mas o leste do país era agora parte da União Soviética e muitos se viram, mais uma vez, aglomerados em trens a caminho da Sibéria. Pouquíssimos sobreviveram à segunda deportação.
O general Anders viveu em Londres até o fim de sua vida. Danuta teve seis filhos e vive perto da Floresta Epping, no leste de Londres. Cada uma das janelas de sua casa está cheia de vasos de plantas e, seu jardim, repleto de cerejeiras.
Elas a ajudam a lembrar da casa na fazenda em Rovne que ficou para trás, há 70 anos.

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